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Frei Rafael de Castelo de Vide (?-1800)

Natural de Castelo de Vide, de que tomou o nome de religioso franciscano, Fr. Rafael de Castelo de Vide professou no Convento da Consolação do Bosque da vila de Borba, de monges da Província da Piedade, fundado em 1505 pelo Duque de Bragança, D. Jaime, para religiosos Capuchos.

A Rainha D. Maria I, a Piedosa, no início do seu reinado, convidara as ordens religiosas de Portugal a enviarem missionários para Angola. Foi assim formado um grupo de 20 que embarcou para ali no dia 22 de Junho de 1779. Quatro destes missionários foram depois destacados para o Reino do Congo. Eram eles o Padre Mestre Fr. Libório da Graça, religioso de S. Bento, destinado para Vigário Geral do Congo;

O Padre Mestre Fr. Rafael de Castelo de Vide, religioso reformado do Nosso Padre S. Francisco da Província da Piedade;

O Reverendo Padre Dr. André de Couto Godinho, presbítero do hábito de S. Pedro e Bacharel em Cânones por Coimbra;

E O Padre Fr. João Gualberto de Miranda, religioso da Terceira Ordem da Penitência do Nosso Padre S. Francisco.

Para se juntar aos outros religiosos Fr. Rafael sai de Estremoz em 22 de Agosto de 1778, sem se despedir dos parentes, segundo as suas palavras, "para que a carne não pudesse prevalecer contra o espírito", partindo depois de Lisboa, com os demais religiosos, para Angola, na nau "Nossa Senhora de Belém" no referido dia 2 de Julho de 1779  

Chegaram a Luanda a 4 de Dezembro de 1779, mas só iniciaram a viagem para o Congo em 2 de Agosto de 1780, primeiro de barco até à foz do Rio Dande e depois em redes, levadas pelos nativos, acompanhados por 210 carregadores. Com a aspereza do clima, a má alimentação e as águas inquinadas, começaram a ficar doentes. O P.e Libório da Graça acabou por falecer na viagem, a 6 de Outubro de 1780.

Já no Congo, faleceu em 8 de Maio de 1783, o Pe. João Gualberto de Miranda,   e o padre negro, Dr. André de Couto Godinho, faleceu também no Congo, em 1789 ou em 1790. 

Fr. Rafael embora debilitado, esteve no Congo até 1788, onde foi verdadeiramente notável a sua acção missionária e de orador sagrado. Regressado ao Convento da Consolação do Bosque da vila de Borba, escreve em 16 de Janeiro de 1790 a um superior: “ … Agora me vejo, graças ao Senhor, restabelecido e totalmente resignado na vontade do meu Senhor. Desejo fazer alguma coisa pelo meu Deus, eu me tenho sacrificado no púlpito e confessionário, e ainda me dói o coração de não ter então a saúde que agora possuo … “.

Em 21 de Junho de 1794, foi nomeado Bispo de S. Tomé, como refere a Gazeta de Lisboa - 2,º Sup. n.º 24, 1794: “(…)S. M. foi servida nomear para Bispo de S. Thomé, o R. Fr. Rafael de Castello de Vide, Religioso de S.to António, da Província da Piedade”. No entanto, por motivos que se desconhecem, só tomou posse do cargo em Agosto de 1797, onde, durante alguns anos foi não só bispo, mas também várias vezes interinamente governador, múnus esses em que a sua empenhada acção foi deveras relevante.

São testemunho do seu zelo nessas funções, as cartas que enviava para o Reino, algumas das quais o Dr. P. M. Laranjo Coelho transcreveu em ”O Bispo Missionário Fr. Rafael de Castelo de Vide”- Lisboa 1959. Numa dessas interessantes cartas, datada da Ilha do Príncipe, em 23 de Julho de 1798, e dirigida a D. Rodrigo de Sousa Coutinho, escrevia: "Por via de huma Nau Ingleza que aqui appareceo comboyando os Navios Mercantes da mesma Nasção envio esta a V. Ex. por não deixar de participar tudo o que se passa afim de acertarmos no que for milhor serviço de S. Maj. (...)". E a dado passo, " (...) que nós sempre estaremos com as armas na mão para a defença da Religião, e do Estado (...) ". Não podendo demorar-se, porque o portador ia partir, ainda escreve: " (...) Agora só digo em geral que o terreno destas Ilhas he apto para toda a cultura, e nellas se achão o café, anil, canella, algudão, pimenta, uvas para se fazer vinho, ja experimentado, mas de tudo pouco, por falta de cultura, e gente europea que cultive; (...) "

Em outra das citadas cartas, ocupado com a sua missão como prelado, dirigindo-se à Rainha D. Maria I, lê-se “ Senhora: (…) Em toda a Ilha de Príncipe apenas há huma Parrochia na Cidade com hum Cura, e Coadjutor, que he bem pouco para tanta gente, e se V. Magestade for servida bem se pode erigir no campo da Ilha o menos duas ou tres parrochias em algumas cappellas dos moradores desta Ilha que não duvidão por serviço de DEOS, e bem das almas (…)”.  

E, da Cidade de S.António da Ilha do Príncipe, a 17 de Julho de 1798, em outra missiva dizia: “Pela real carta de dezanove de Mayo do anno passado foi Vossa Real Magestade servida de me participar a noticia do felis nascimento da Sereníssima Infanta; de que foi indizível o meu contentamento, e encarregado como estou de hum e outro governo espiritual e temporal, procurei logo, que nestas Ilhas, conquistas de V. M., se fizessem as maiores demonstraçoens de jubilo, e alegria e solemnes acçoens de graças ao Senhor todo Poderozo, (…)”.

Frei Rafael redigiu quatro desenvolvidas e interessantes relações, datadas de 16 de Julho de 1781, 25 de  Setembro de 1782, 27 de Agosto de 1783, e 15 de Dezembro de 1788, relatando a sua ida para o Congo e os seus trabalhos como missionário, que constituem o Manuscrito n.º 396, Série Vermelha pertencente à Academia das Ciências de Lisboa.

Fr. Rafael foi também leitor de Teologia, qualificador do Santo Ofício e ministro Provincial da Piedade

Ao serviço da Igreja e da Pátria, morre em 15 de Janeiro de 1800 em São Tomé, no sítio do Picão.

Diogo Salema Cordeiro

Fontes consultadas
- Relação das Viagens que fizerão os padres Missionários desde a cidade de Loanda, donde sahirão a 2 de Agosto de 1780, athe a Presença do Rey do Congo, onde chegarão a 30 de Junho de 1781, assinadas por Frei Rafael de Castelo de Vide, pelos dois companheiros da Missão, Padre André do Couto Godinho e Fr. Gualberto Miranda – “Os Annais do Conselho Ultramarino” – Serie II, Pág, 62 e sgs. Constituem o Manuscrito n.º 396, Série Vermelha pertencente à Academia das Ciências de Lisboa. Ver também uma transcrição em http://arlindo-correia.com/161007.html

- Gazeta de Lisboa, 2º Sup., n.º 24, 1794.

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Bibliografia :
- AMBRÓSIO, António - Subsídios para a História de S. Tomé e Príncipe. Lisboa : Livros Horizonte, 1984.

- COELHO, Possidónio Mateus Laranjo - O Bispo Missionário Fr. Rafael de Castelo de Vide - Alguns subsídios inéditos para a história da sua notável acção espiritual e temporal em Angola, Congo, Ilhas de S. Tomé e Príncipe. Lisboa : Academia das Ciências de Lisboa, separata das "Memórias" (CLasse de Letras, tomo VII), 1959.

- REPENICADO, António Vicente Raposo - Castelo de Vide nas Letras e nas Ciências (Escritores e Bibliografia). Castelo de Vide : separata do Jornal Terra Alta, 1970.

- VIDEIRA, César - Memória Histórica da Muito Notável Villa de Castello de Vide. Lisboa : Empresa da História de Portugal, 1908.

- VIDEIRA, César - Memória Histórica da Muito Notável Villa de Castello de Vide. 2ª ed.,Lisboa : Colibri, 2008.


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