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João António Gordo (1881-1965)

João António Gordo, um dos dois filhos de António Marcelino Gordo e de Maria dos Remédios Beliz, como seus pais, era natural de Castelo de Vide, onde nasceu a 14 de Julho de 1881, pelas 15 horas, na Rua da Costa, nº 11, freguesia de Santiago Maior. Neto paterno de João Pedro Gordo Sénior e de Ana Maria Mouta, e materno de António José Beliz e de Maria Eugénia Gargaté. 

A 29 de Agosto de 1881 soaram os sinos da Paroquial Igreja de São Tiago Maior, anunciando o baptismo do pequeno João. Foi oficiante o Pároco Padre Serafim Pedro de Carvalho e Sequeira, e padrinhos João Pedro Gordo e Maria Eugénia Gargaté, avós do batizando.

Passando a sua infância em Castelo de Vide, desde logo se foram revelando os seus dotes de carácter, que depois lhe foram sendo sempre reconhecidos. Determinado na sua conduta, inteligente e trabalhador, tinha um sentido elevado da vida. 

Fez a Instrução Primária na sua terra natal. Depois seu pai pensou em encaminhá-lo para um curso médio, na área da actividade farmacêutica, mas não era isso que o seduzia. Talvez como tentativa para que a sua vida seguisse esse caminho, ainda esteve empregado na Farmácia Freixedas, em Castelo de Vide. Cedo começava assim a sua vida de trabalho. Mais tarde empregou-se, tal como seu irmão, na Alfândega da Beirã, como despachante de aduaneira (foi nomeado Despachante Oficial na Delegação Aduaneira de Beirã, dependente da Alfândega de Lisboa, em 27 de Julho de 1907).

Mas a sua actividade naquele posto aduaneiro não foi pacífica. A este respeito, entre outras situações, é disso elucidativa prova, a bem elaborada exposição por ele enviada em 12 de Abril de 1911 ao Ministro das Finanças, acerca da sua questão profissional na Alfândega. 

Assim, seriamente e por muito tempo ferido nos seus direitos, na sua merecida remuneração e até no seu amor próprio, João Gordo bateu-se durante anos contra a injustiça de que era vítima, ao ser sucessivamente preterido, sem motivo legal algum, por um cidadão de naturalidade espanhola, domiciliado em Valência de Alcântara e ali despachante aduaneiro.

Com a clareza e frontalidade da sua escrita, a mencionada exposição é o fiel retrato de uma vil situação por ele vivida e estoicamente sustentada. Porém, foi diligência e tempo perdidos. Em face de mais uma injustiça, novamente João António Gordo se dirige agora à Companhia, desta vez requerendo ser nomeado seu agente, visto que, segundo a lei, só os despachantes oficiais podiam despachar. Ainda outra vez foi trabalho perdido.

Por estas exposições se vê o que terá sido a sua luta, mas também a intrepidez e a personalidade com que a enfrentou. 

Foi regular e prudente a administração dos bens, na sua terra, entre os quais o seu lagar de São José, que tanto prezava, instalado no sítio do mesmo nome, para fabrico de azeite, actividade que o ocupou grande parte do tempo até quase ao fim dos seus dias. Este lagar fora mandado construir por seu pai, segundo os mais actualizados processos técnicos da altura, sendo confiada desde logo a administração ao filho mais velho, de quem aqui nos ocupamos. Os períodos de laboração preenchiam quase por inteiro o seu tempo.

Um pouco introvertido, e embora de temperamento por vezes propenso a pequenas susceptibilidades ou desinteligências, o que lhe trouxe dificuldades de relacionamento com algumas pessoas, nomeadamente com familiares seus, João Gordo era no entanto um carácter bem formado e bondoso, como ficou comprovado por quem teve a ventura de o conhecer. Amigos seus, segundo já vímos escrito, consideravam-no "pessoa de ódios", mas temos que tal expressão será demasiado exagerada.

De pensamento republicano, entendia no entanto que não se devia submeter a quaisquer forças partidárias, prezando assim um maior grau de independência, sem prejuízo, obviamente, da certeza das suas convicções.

Possuindo apenas a Instrução Primária, foi um constante estudioso, atingindo relevante grau de cultura, dedicando particular interesse aos assuntos da história local.

Começando por ser correspondente de vários jornais (O Século, O Primeiro de Janeiro, Diário de Notícias e Diário de Lisboa), viria depois a dedicar-se a alguns aspectos da história da sua terra, publicando: "Bosquejo Histórico da Notável Vila de Castelo de Vide" 1903, "Confederação Nacional dos Municípios" (tese apresentada no Congresso Municipalista em 10 de Junho de 1922), "Regresso aos Municípios" 1925, "Terra Alta - Antologia de Castelo de Vide", 1935, que tanto êxito teve e ainda hoje se relê com agrado, "Os Le Cocq em Portugal", separata de "O Castelovidense", 1942, "Figuras Gradas do Nosso Burgo", 1945, "No Alto Alentejo: Crónicas e Narrativas", 1954.

Deixou ainda copiosa colaboração sua na imprensa regional, como em: "O Alto Alentejo", "O Povo", a revista "Terra Mãe", "O Castelovidense", "Folha do Leste", "Terra Alta", "A Rabeca", "Brados do Alentejo", e o "Linhas de Elvas", assim como nas publicações "Almanaque Alentejano" e "Panorama".

Foi relevante a sua participação na vida local, ocupando várias vezes o cargo de presidente da Câmara e de vereador e tomando parte na administração das diversas instituições de assistência, entre as quais, na de provedor da Santa Casa da Misericórdia.

A sua vida pública foi, para o seu meio, muito preenchida. Entre outras actividades que o ocuparam, aqui ficam registadas apenas algumas.

Da varanda da escadaria dos Paços do Concelho, em 19 de Junho de 1911, João Gordo, Presidente da Comissão Administrativa do Município, confirma oficialmente, em Castelo de Vide e com muita solenidade, a proclamação da República em Portugal. Já em 19 de Outubro de 1910 tomara posse como membro da primeira Câmara Municipal de Castelo de Vide, após a implantação da República, a 5 de Outubro.

Integrando então, em 26 de Abril de 1911, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal, e por iniciativa desta, começou neste dia a funcionar o novo relógio, de quartos dobrados e horas repetidas, instalado na torre dos Paços do Concelho. Compreende-se bem que, naquela já recuada data, estes acontecimentos locais revestissem natural regozijo para quem os promovia e grande impacto na população.

A 10 de Agosto de 1913 organiza-se o Gabinete de Propaganda Regional de Castelo de Vide, a que ficou presidindo.

É empossada a 16 de Janeiro de 1918 a primeira Comissão Administrativa da Câmara, após a vitória de Sidónio Pais, a 5 de Dezembro do ano anterior, Comissão que igualmente integrou. Em 25 de Junho de 1920 é nomeada pela Câmara de Castelo de Vide a Comissão de Vigilância e Defesa do Castelo, ficando à sua frente João António Gordo. 

A 23 de Março de 1927 integrou como membro o Grémio de Acção Municipal e a partir de 24 de Abril de 1928 pertence a mais uma comissão, a de Iniciativa e Turismo de Castelo de Vide.

Com um jantar que teve lugar no Hotel das Águas, no dia 9 de Novembro de 1935 foi homenageado por motivo da publicação da valiosa e já referida antologia de Castelo de Vide, "Terra Alta", de sua iniciativa e por seu filho coligida.

A 17 de Outubro de 1937 era eleito Presidente da Junta de Freguesia de Santiago Maior.

Em 7 de Abril de 1943, pensando no progresso da terra que o vira nascer, outorga na escritura pública de constituição da nova Empresa das Águas Alcalinas e Medicinais de Castelo de Vide, Lda., acto em que se substituía a Empresa do mesmo nome e que, conforme se lê no próprio documento, se encontrava "em situação de lhe ser legalmente declarada falência".

Em reunião de 24 de Fevereiro de 1948 a Mesa da Misericórdia aprovou, por unanimidade, a Comissão Instaladora do Albergue João José Le Cocq, estabelecido por legado do Conselheiro Alfredo Carlos Le Cocq. Foi João Gordo, testamenteiro do Instituidor quem ficou a presidi-la. E a 28 de Novembro do mesmo ano inaugurava-se essa nova casa de assistência, solene cerimónia em que João António Gordo proferiu um apreciável discurso, e em que teve a satisfação de ver concluído mais um serviço prestado à comunidade. 

Entretanto, a 6 de Junho de 1914 casou com Ana Rita Pelouro Repenicado, de 20 anos de idade, acto celebrado em casa dos pais da noiva, Manuel d'Alegria Repenicado e Maria Benedita Pelouro Repenicado, então moradores na Praça D. Pedro V, e com a presença do funcionário do Registo Civil, António Vicente Raposo Repenicado.

Do novel casal houve dois filhos: Maria Benedita Repenicado Gordo, que a 1 de Setembro de 1940 casou com João Alberto Tavares Manso, sem geração, e António Marcelino Gordo, que viria a falecer solteiro em 1982.

Algumas preocupações lhe trouxeram os seus filhos, porque a ambos faltava frequentemente a saúde. E já com a idade de 81 anos, sofreu o desgosto de ver falecer-lhe, em 26 de Fevereiro de 1963, a sua filha, com apenas 47 anos.

A família mais próxima era então o filho e o seu genro, bem como o irmão e cunhada, e as suas sobrinhas.

Júlio da Assunção Gordo (1885 - 1967), o único irmão, como se disse, foi casado com Maria Soares Grincho Gordo, pais de Maria Júlia Grincho Gordo Nunes, casada com o Dr. Virgílio Godinho Nunes, Maria da Assunção Grincho Gordo Martins, casada com o Dr. José António Neves Martins, e a mais nova, Maria Mendes Grincho Gordo Fragoso, casada com José Reis Dinis Fragoso.

A casa da Manita, em Castelo de Vide, no sítio da Videla, prédio misto anteriormente pertencente aos irmãos Bastos Pimenta, era o seu encanto para passar férias ou outros períodos do ano. Ali se faziam reuniões políticas ou de amigos. E ali, também em 4 de Julho de 1916, nascera a sua filha. 

Contando 84 anos de idade, e deixando viúva Ana Rita Pelouro Repenicado Gordo, faleceu, vítima de trombose cerebral, a 11 de Dezembro de 1965, na sua casa, na Carreira de São Tiago, e na sua "Castelo de Vide, Vila Medieval, Cidadezinha Moderna". 

Diogo Salema Cordeiro

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Bibliografia :
- GORDO, João António - Os Le Cocq em Portugal. Castelo de Vide : separata de O Castelovidense, 1942.

- GORDO, João António - Regimen do Despacho Aduaneiro na Fronteira de Marvão - Exposição apresentada ao Ex.mo Sr. Ministro das Finanças, com uma carta ao Ex.mo Sr. Innocencio Camacho, presidente da comissão de reforma dos srviços alfandegarios, pelo despachante oficial João Antonio Gordo. Castelo de Vide : Typographia Estacio & Casaca, 1911.

- GORDO, João António - Castello de Vide - Bosquejo historico d'esta villa notavel Seguido de rapida noticia sobre a sua vida actual. Descripção de seus monumentos e institutos pios, notas biographicas de seus filhos illustres, etc., etc. Illustrada com muitas gravuras. Portalegre : Typ. Fragoso & Leonardo, 1903.

- GORDO, João António - No Alto Alentejo - Crónicas e Narrativas. 1ª ed.,Lisboa : Ed. de autor, 1954.

- GORDO, João António - Fronteiros Vencidos, Burgos na Agonia - Na Raia do Alentejo. In Almanaque Alentejano. Ano XVIII,Lisboa : Casa do Alentejo, 1956, pp. 222-226.

- GORDO, João António - Castelo de Vide "Vila Medieval" "Cidadezinha Moderna". : texto dactilografado, 1943.

- GORDO, João António - Terra Alta - Antologia de Castelo de Vide. Lisboa : Ed. de autor, 1935.

- GORDO, João António - Figuras Gradas do Nosso Burgo. Castelo de Vide : Tip. Castelovidense, 1945.

- GORDO, João António - No Alto Alentejo - Crónicas e Narrativas. 2ª ed., Castelo de Vide : Grupo de Amigos de Castelo de Vide, 2004.

- GORDO, João António - Regresso aos Municípios. Castelo de Vide : Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1987.


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