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José Vicente Branco do Casal Ribeiro (1907-1990)

O médico veterinário José Vicente Branco do Casal Ribeiro nasceu em Lisboa, a 15 de Julho de 1907, na Avenida Ressano Garcia, 20 3º, Freguesia de São Sebastião da Pedreira, em cuja paroquial foi batizado a 8 de Agosto do mesmo ano. Filho de José Vicente Caldeira do Casal Ribeiro, 2º Tenente da Armada, natural da Freguesia de São Bartolomeu do Beato, e de Alda Branco do Casal Ribeiro, natural da de São José de Lisboa. Era neto paterno de Carlos José Caldeira e de Maria Maximiana da Madre de Deus Caldeira e materno de Eduardo Nunes Branco e Georgina Amália de Carvalho Branco. Foram padrinhos do batizado Luís João Nunes, casado, comerciante, e sua mulher Leocádia Maria de Jesus Nunes, moradores na Rua Direita do Grilo, ao Beato, 74.

Matricula-se em 1918 na Escola Nacional de Agricultura de Coimbra, curso que concluiu em 1924. Frequentou em Milão, na Escola Superior de Medicina Veterinária, os dois primeiros anos do curso, tendo terminado a licenciatura em Paris,na Escola Superior de Medicina Veterinária de Alford em 1929, com a tese “Les moyens actuels de la lutte contre la fiévre aphteuse”, editada em Paris no ano seguinte com a dedicatória que se traduz e transcreve, e em que se revela já a sensibilidade que viria a marcar a sua vida: 

“A MEUS PAIS
E
MEUS IRMÃOS
Ao Senhor Professor L. PANISSET
E A TODOS OS MEUS MESTRES
Aos meus Amigos de Coimbra, de Alfort e de Itália
Que uns com um amor infinito,
Os outros com os seus benévolos conselhos,
Os últimos com a mistura de bondade e impetuosidade,
que bem caracteriza a amizade dos jovens
todos ajudaram a fazer-me
um filho orgulhoso da sua Pátria e sua Família
um discípulo reverendo e afectuoso
um amigo do coração sincero e dedicado”

Vale a pena incluir aqui também o prefácio da mesma obra, que o autor subscreve, e que, além do seu valor intrínseco, nos revela, por vezes com uma ponta de humor,  mais alguns dados da sua biografia.

"PREFÁCIO
Proveniente de um país que recentemente foi atingido pela febre aftosa, pensei fazer algo de útil aos meus compatriotas, dedicando a minha tese ao estudo de novos métodos utilizados no estrangeiro contra esta doença. Bem: eu não espero que, por essa razão, eles me ergam uma estátua numa das ruas de Lisboa, nem mesmo ver brilhar uma bonita placa de mármore, comemorativa do meu trabalho, sobre a casa em que eu nasci.
De facto, quando simples jovem de dezoito anos de idade, cheio das mais belas ilusões, eu fui bater na porta da Escola de Lisboa, e fui rejeitado tão bruscamente, que só consegui parar sob o doce sol da Itália. Lá, adquiri as minhas primeiras noções científicas numa outra língua diferente da minha, para as continuar dois anos mais tarde com a ajuda do francês, que me era quase tão desconhecido como o italiano. Assim, eu tive de trabalhar um pouco para não ficar atrás dos meus colegas. No entanto, esse esforço adicional ao qual eu tive que me render, não é a causa da imperfeição do meu trabalho. A razão é que, aos vinte e dois anos de idade, procedente apenas dos bancos da Escola, não é materialmente possível trabalhar de modo a isentar-se de todas as críticas. Este argumento, no entanto, incentiva-me a perseverar no estudo e a pedir toda a vossa boa vontade, a vocês que lêem estas páginas.
Alfort, 13 de Novembro de 1929"

José Casal Ribeiro casou em 7 de Setembro de 1933, com 26 anos, em Paris, no 14º Bairro, com Margarite Silberberg, pianista, de 23 anos de idade, filha de Maurice e de Beila Schweistein, nascida em 6 de Março de 1910, na Rue Biclat, n.º 40, em Paris.

O casal teve quatro filhos: Maria Georgina Silberberg do Casal Ribeiro, (n.23/06/1934 em Castelo de Vide), Clara Silberberg do Casal Ribeiro (n.01/06/1936 em Castelo de Vide), Carlos José Caldeira do Casal Ribeiro (n.23/12/1937 em Lisboa) e Maria José Margarida do Casal Ribeiro (n.17/01/1947 em Castelo de Vide).

Começou de imediato a sua carreira profissional em 1930. Por deliberação da Câmara Municipal de Castelo de Vide, de 4 de Abril desse ano, é contratado inspector municipal de sanidade pecuária do concelho e em 2 de Janeiro de 1931, é nomeado definitivamente nesse cargo (Aviso publicado no Diário do Governo, segunda série, n.º 237 de 10 de Outubro de 1930), Cargo que exerceu até 1937. Foi depois técnico de lacticínios da Junta Nacional dos Produtos Pecuários de 1940 a 1945, e deste ano a 1956 médico veterinário da Intendência Pecuária de Portalegre. Em 1956 é nomeado Intendente de Pecuária de Portalegre, que exerceu com reconhecida competência estas funções durante cerca de vinte anos, e em que foi notória a sua acção técnica nos oito concelhos abrangidos por esta intendência, funções com que terminou a sua carreira profissional. 

De elevada craveira intelectual, culto e distinguindo-se pelo seu particular carácter, O Dr. Casal Ribeiro gozou de especiais amizades e consideração em Castelo de Vide, onde se destacou também pela sua bonomia e popularidade. De temperamento determinado, era de invulgar tenacidade e persistência nos objectivos a que se propunha e veemente na defesa das suas opiniões, sem prejuízo do debate cordial e interessado noutras ideias ou formas de pensar.

José Casal Ribeiro participou na administração de quase todas as instituições locais, de que se destacam:
- Presidente da mesa da Assembleia-geral do Sindicato Agrícola de Castelo de Vide. Aproveitando os contactos com os agricultores que o desempenho deste cargo lhe proporcionava, desenvolveu uma especial luta contra o carbúnculo, doença que no concelho então ainda vitimava pessoas e animais.
- Presidente do Conselho de Administração da Empresa das Águas Alcalinas e Medicinais de Castelo de Vide;
- Presidente da Direcção do Asilo Almeida Sarzedas, dois mandatos, em Julho de 1934 e Setembro de 1935;  
- Co-fundador da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Castelo de Vide, em 18 de Abril de 1936, ocupando o cargo de secretário da primeira direcção;
- Presidente da Câmara Municipal de Castelo de Vide, pela primeira vez, em 1957, pedindo em ofício de 15 de Fevereiro de 1961 ao Governador Civil de Portalegre “um inquérito à sua actuação e a suspensão do seu exercício”. Foi exonerado em 21 de Fevereiro de 1961;
- Em 22 de Fevereiro de 1970, em reunião da Assembleia-Geral dos Irmãos da Santa Casa da Misericórdia, o Dr. Casal Ribeiro é eleito Provedor, para o triénio 1970/72, tomando posse em 15 de Março de 1970.
- Eleito presidente da direcção do Asilo de Nossa Senhora da Esperança, tomou posse deste lugar em 17 de Junho de 1972;
- Presidente da Direcção da Casa do Povo de Castelo de Vide, empossado em 4 de Julho de 1968, sendo neste mandato promovida a construção do novo edifício-sede para esta instituição, sob projecto do Arq. Cruz Homem.
No desempenho das funções de Presidente da Câmara Municipal interessou-se especialmente pelo desenvolvimento do turismo local e por intervenções urbanas, como, entre outras, a pavimentação de várias ruas da vila e uma significativa obra na entrada da vila e zona dos jardins, obra na altura muito contestada, mas que acabou por ser reconhecida como uma valorização de todo aquele espaço. Foi autor deste projecto um arquitecto urbanista e aprovadas por mestre Carlos Ramos (filho), bem como pela Junta Autónoma das Estradas e de Direcção Geral dos Serviços de Urbanização.

Em meados de Abril de 1974 uma penosa situação pessoal, com um processo judicial, a prisão na miserável cadeia da vila e a perda de todos os seus bens, marcam muito a sua vida e interrompem bruscamente a sua participação nas entidades a que então presidia em Castelo de Vide, demitindo-se dos cargos de Provedor da Santa Casa da Misericórdia, de presidente das direcções da Caixa de Crédito Agrícola, da Casa do Povo e do Asilo de Nossa Senhora da Esperança. 

- Presidente da Câmara Municipal pela segunda vez, eleito para o primeiro mandato do novo regime constitucional, instaurado após o 25 de Abril de 1974, sendo empossado no Governo Civil de Portalegre em 3 de Janeiro de 1977, cessando essas funções em 31 de Dezembro de 1979.
- Foi Governador Civil de Portalegre de 11-07-1983 a 16-12-1985.

Colaborou nos vários periódicos da imprensa local bem como em publicações da especialidade. Editou: “Les moyens actuels de la lutte contre la fiévre aphteuse”, editions Lac, Paris, 1930, já aqui referida, que constituíra a sua tese de licenciatura; “Breves e simples regras para uma produção higiénica e racional do Leite” – Edição da J.N.P.P. Lisboa, 1941; “Embalagens de manteiga e preceitos a observar no seu acondicionamento” – Edição da J.N.P.P., Lisboa, 1942; e “Defeitos tecnológicos e de conservação da manteiga”, trabalho publicado nos periódicos “Notícias Agrícolas” e “Revista da Associação Industrial Portuguesa”, Lisboa, 1944-45.

Nos últimos anos de vida assinou no jornal “O Pregão” uma série de nove artigos, sob o título Reminiscências Veterinárias (nº 19 a 23, e 25 e 27 de 1987, e nº 28 de Janeiro de 1988), em que descreve a sua carreira de médico veterinário.

Contando 82 anos, faleceu, vítima de enfarte do miocárdio, em 5 de Março de 1990, na sua casa na Praça D. Pedro V em Castelo de Vide. O funeral realizou-se no dia seguinte para jazigo de família no cemitério desta vila. Marguerite Silbergue Casal Ribeiro, que sobreviveu ao marido, faleceu meses depois, também em Castelo de Vide em 23 de Janeiro de 1991.

A José Casal Ribeiro foram prestadas em Castelo de Vide algumas homenagens. No Salão Jardim, no dia 9 de Janeiro de 1987, foi-lhe oferecido um jantar de homenagem, a que compareceram cerca de 150 pessoas. No fim do jantar, entre outros presentes, falaram Carolino Pina Tapadejo, Fernando Silva Soares, Dr. António Teixeira (então Governador Civil do Distrito), Dr. Miranda Calha (Deputado pelo círculo de Portalegre na Assembleia da República) e o homenageado. E no dia 24 de Fevereiro de 2007 a Comissão Concelhia de Castelo de Vide do Partido Socialista enalteceu a figura deste cidadão, celebrando o centenário do seu nascimento, e evocando a passagem do 30º aniversário da realização das primeiras eleições Autárquicas, em 1976. O programa constou de uma romagem ao cemitério e colocação de uma coroa de flores na campa do homenageado, tendo falado Fernando Silva Soares e João Palmeiro Novo. Cerca das 16:30 horas realizou-se uma sessão evocativa, que teve lugar no Centro Municipal de Cultura. Discursaram Jaime Estorninho, Governador Civil de Portalegre, o Comendador Rui Nabeiro, o Dr. Miranda Calha e Ceia da Silva, Presidente da Federação de Portalegre do Partido Socialista.

Diogo Salema Cordeiro

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Bibliografia :
- RIBEIRO, José Casal - Breves e simples regras para uma produção higiénica e racional do leite. N.º 2, Lisboa : Ministéro da Economia / Junta Nacional dos Produtos Pecuários / 3ª secção Produção e Comércio de Lacticínios, 1942.

- RIBEIRO, José Casal - Embalagens de manteiga e preceitos a observar no seu acondicionamento. N.º 1, Lisboa : Ministéro da Economia / Junta Nacional dos Produtos Pecuários / 3ª secção Produção e Comércio de Lacticínios, s.d..

- RIBEIRO, José Casal - A prevenção e luta contra a tuberculose no campo veterinário. Portalegre, 1971.


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